sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O Vinho e o Ralo

calce a tua bota negra engrachada e polida
agora levante bem a perna e se prepare
pois eu, eu já estou preparado, apesar de não ter
escudo de proteção ou armadura de gladiador
só mãos frágeis que nunca sofreram os cacos de todos os dias
o aço e o ferro do mundo de quem sofre a verdadeira dor
apenas habituadas a buscar as tuas num breu cínico
misto de ilusão com sarcasmo negro
palpitá-las na cegueira do paraíso astral
para seguí-las até o inferno das labaredas
dos teus olhos desvairados
tão inúteis ao trabalho quanto para parar
a tua pisada santa

quebre-as ao meio, baby baby
elas não te servem mais
pois bem sabes que sempre terás outras
e quando precisar destas fracas mãos de poeta
virás cheia de beijos e promessas sem fundo
cheques entupidos de infinitos
e elas te buscarão na total insanidade de quem quer
o santo remédio

(e quanto mais tu pisaras? quanto
mais pisaras? quanto mais
pisaras em mim, você que era
anjo?)

para que a chibata, meu amor?
já tiraste a brancura da minha pele marfim
precisas de sangue para ser feliz, bem o sei
sempre soube, tu que caminhavas pelas ruas
deixando corpos estendidos pelo caminho
e mentindo que o que gotejava da saia azul-anil
era o teu próprio sangue de coração partido
desiludida com as rosas estendidas, as palavras ditas
enquanto os indigentes se desvaindo em vinho maldito
apodrecem na escuridão
das tuas noites bem calculadas

e agora que já tens o sangue e a dor
se fundindo pelo assoalho da cozinha enquanto
o bolo assa no fogão ali ao lado
termine o trabalho
humidifique teus lábios e se prepare
pois eu já estou preparado, embora nada tenha
a me proteger
e cuspa sobre todo o vinho ali derramado
que se esvai para o ralo.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Que Sejas Livre

se escancaro a porta, quebro a maçaneta
para que nunca mais ela se feche
e digo que vá se quiseres
saibas que é apenas charme de mentiroso
bem sei no que vamos pisar
e no breu não se enxerga nem fogo
e nem gelo
mas se abro a porta é apenas por saber
que ela sempre assim esteve
não é desejo de te ver ir
nem vontade minha de ir

estás aberta pois não suportaria te ver
trancafiada no casulo da minha frágil
inexistência
rodopiando junto a meu corpo
nos cacos das garrafas de vinho vazias
com uvas palpitando sangue
amargamente podre
e digo que saia por ela para viver
as danças e os beijos
que não sou apto a te dar
sempre no intuito egoísta de crer que não irás
que eu e tu já somos
imunes aos cacos de vidro
espalhados pelo chão.