quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Roubados

Por que disfaçar, acorbertar, inventar
tantas histórias, tantos algos
se o nosso objetivo é simples, se o nosso fim é premeditato?

Por que nos prender, iludir, acorrentar
a tantas expectativas, a tantas mediocridades
se a nossa liberdade é falsa, e bem o sabemos?

E enfim, por que continuar seguindo em frente
caminhar pensando no futuro, esperar pelo fim certo
se sabemos que o que o Tempo rouba
roubado está?

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Sobre o Veneno da Flor

mesmo que do amor se faça a dor
cultivo a flor dentro de mim
deixo-a florescer, crescer. desaflorar
viver e perfumar
mesmo sabendo que um dia ela há de morrer
e se envenenará
e talvez todo o galho acabe por envenenar
sem critério, sem escolha
não há vontade ou razão: há apenas natureza em seu ciclo
de morte e vida
contudo, ainda deixo-a viver, e ainda a nutro
pois mesmo que tudo seja um ciclo
pois mesmo que a morte seja natureza
os produtos da memória se mantém
sem veneno que os envenenem.

Sobre o Se Matar

descontrole é lei
insanidade é mandamento universal
digo o que penso, não o que sou
são inúmeras as partículas do que tantos conhecem que me movimentam
rumo aos caminhos desconhecidos do meu próprio Eu
e por mais que eu vá mais fundo, afasto-me de mim mesmo
me perco dentro dos meus múltiplos caminhos internos
me deixo levar pelas correntezas de hidrocarbonetos alcóolicos
e me saturo na química primária
na mesma proporção
em que sepulto a melhor parte do meu Eu
dentro da minha pior parte.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Sobre um Coração em Divisão

o seu amor se fragmenta em um
em dez
em cem
em mil
em todo o infinito se possível

e tantas são as parcelas dele
tantas, tantas, tantas,
tantas dadas a um
tantas dadas a outro
enquanto finjo me contentar com o infinito dividido pelo infinito
do que resta do seu amor
e seus inúmeros zeros pós-vírgula.

Sobre o Atual

as lembranças me sufocam como braços divinos
esperneio, grito, choro
imploro para que elas parem, e para que tudo desapareça
como se nunca tivesse existido
como se nunca fosse existir

enquanto isso, me consumo de dentro pra fora
enveneno a alma, corrompo os sentidos, corto a carne
arremesso meu ser no travesseiro e deixo-o afundar nas penas dos anjos
em tentativa ignorante de me anular, de me esquecer
e de esquecer tu também

porém, não consigo, e assim me deixo levar pela correnteza dos dias
deixo-me apagar pelo Tempo, sem faca levantar
e sem luta declarar
virando fantasma, virando semi-ser, virando semi-algo
qualquer coisa que seja translúcida no presente
e morta no passado.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Sobre o Fim Eterno

O fim se cria, recria, prorroga, adormece
Se rejuvenesce pelo passado
Se alimenta da raiva
Se sabota no presente.

E se nos jogamos em seu abismo
De mãos dadas ou separadas, tanto importa,
O Tempo se congela, e nos congela também
E a gravidade age em reverso;
Asas criamos.

E se realmente em queda livre vamos,
O abismo faz-se infinito
A gravidade fortalece ou o Tempo acelera, tanto importa,
Voamos sem asas.

O fim existe e não existe
Se constrói e descontrói
Eternamente acabáveis somos nós.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Ditadura da Rotina

Nem sempre haverão novos lugares para se ir
Nem coisas para falar
E talvez nem emoções para sentir.
Quem sabe a banalidade vire ditadura,
E o único lugar a salvo seja dentro de nós
Recriando o presente pelo passado.

Mas será que ainda algum dia
O amor virará banalidade
E desistir seja a única liberdade?

domingo, 27 de novembro de 2011

Sobre a Vontade

Desejo-te a cada poro do meu corpo
Tomas o espírito e queres coordenar minhas ações
E se achas que te impeço por querer próprio, tu se enganas,
Tua essência é liberdade
E liberdade é tudo que posso desejar.

Porém, bem sabes que desejos são proibidos;
Está na hora de ires
Retornar às memórias ainda não tomadas por aquele que o presente governa
E se der, espero que lá tenhas o espaço desejado por ti
Para que possas me abrir, explorar, amar, libertar
E se não tiveres, vá sempre o mais fundo
Não desistas
Que há de haver um lugar que seja, um canto qualquer
Um escanteio de recordação ainda vazio
Uma encruzilhada ensangüentada de pecado.

E saibas que te quero a mim, assim como tinha antes
Mas tudo está ditado, tudo está prescrito
As leis foram subjugadas, o clamor do eu jaz vencido
E agora, vá, Vontade, pois não és tu que mantém a estabilidade
É dito que a tua alma é desgraça
E apenas a ditadura da razão que conserva a moral imaculada.

sábado, 19 de novembro de 2011

Sobre as Palavras Mudas


Não durmo
Não pisco
Não fecho os olhos
Na esperança cega e um tanto inútil de que tal negação me iluda da realidade das visões dos seus lábios beijando outros lábios
Das suas mãos tomando outras mãos
Do teu corpo em profusão a outro corpo
Da sua alma em amor a outra alma.

E desconfio interminavelmente dos seus dizeres de amor
Tão puros e sinceros quanto a sua natureza fugaz e indiferente
Que esquece sem perceber a lástima das memórias
E apaga a paixão sufocando-a com braços de amor com dignidade de ódio malévolo
Enquanto ponho-me a afundar em sangue de meu coração despedaçado por palpitantes apelos mudos
Com suspiros nunca concretizados pelos pulmões cravejados de dúvidas
Com lágrimas nunca choradas por olhos tonteados de incertezas
E com palavras nunca ditas por uma alma frágil
E enxuta de emoções covardes de um ser triste e corrompido
Pelas recordações das felicidades (in)existentes.

domingo, 18 de setembro de 2011

Sobre a Verdade

no meu mudo choro
das lágrimas que jorram por dentro
e dos suspiros que a alma solta sem soltar
é que começo a entender
que nos perder
nunca nos perdemos

e estar juntos
nunca estivemos.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A Dor das Almas Gêmeas

Entro no ônibus e sento-me num banco, na minha frente uma senhora com sacolas de supermercado e aparência carrancuda de mãe cansada e já apedrejada pela vida, ao meu lado um metódico nada, o qual me deu a liberdade de quase deitar. Saco meu livro um tanto sujo por tantas semanas a vagar de um lado ao outro em minha bolsa, sempre a distrair-me nas viagens dentro do transporte público destinado às massas, tão precário de emoção. 

Olho para trás, e aí está você.

Sentada há alguns bancos de distância, olhos vidrados em algo que trás no colo. Lábios secos que a língua periodicamente umidifica. 

Estanquei.

 
De repente, ergue os teus olhos e junta-os aos meus. Encaramo-nos no silêncio das almas mudas e no caos do ambiente urbano. A cidade grita, os seres se calam. Nós nos enxergamos.
E nós nos sentimos, apenas como dois desconhecidos são capazes de se sentir. Estávamos livres das dores da decepção mútua.
Mas sentias que algo em ti me clamava, e algo em mim te clamava também. Queríamos provar do conhecer. Queríamos correr o risco de por o nosso sentir a morrer.

Havia um lugar livre a teu lado. Havia um lugar livre a meu lado.

O ônibus para num ponto. E os lugares desaparecem; agora jaz tudo cheio. Porém não conseguia parar de te encarar, pois em teus olhos havia um algo que conheço, e que tinha. Mas que se perdeu.
Sinto que te amo. E sinto que me amas também. O amor singular das almas que se juntam sem se encostarem, e que vivem em co-existência sem se fundir. Ou que se fundem sem se perder.
E com a mesma velocidade que os olhares criaram o amor que nos une, tu se levantas e puxas a corda do ônibus. Está no seu tempo de ir. O amor em teus olhos se mescla com a dor, e o meu peito se contorce no prever da solidão.
Mas não importa o quanto de dor ou solidão nós tenhamos: está na hora de nos separarmos. Eu para os braços de alguém esta noite, mesmo sabendo que eles nunca mais serão o suficiente. E tu? Quem sabe para o mesmo destino.
Porém desejo-te, e sei que me desejas também.

A porta se abre e tu se vai. O elo se rompe.

Corro e peço para que o motorista me deixe descer o mais rápido possível, que me liberte da prisão de impotência das paredes do ônibus, impotência de chegar até ti.
Pulo para a rua e busco o teu corpo, mesmo que não o tenha visto em plenitude. E busco o teu olhar, pois nele carregas um pedaço de mim mesmo, bem como carrego de ti um pedaço seu.
Não te encontro. Não me encontras.

Nunca nos encontramos.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Sobre a Dor Mútua

olha-me com olhos vermelhos
de lágrimas ressecadas
olho-te com olhos negros
de lágrimas nunca choradas

e sinto-te
a alma despedaçada
e sinta-me
a alma envenenada

e se na dor e na tisteza
não somos capazes de nos consolar
por que na felicidade
devemos nos juntar?

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Sobre o Eu

sou um poeta com tudo,
menos comigo mesmo.

indiferente na aparência,
e insatisfeito na essência.

que de palavras se nutre,
e em amor se sufoca.

e que vive e morre,
sem perceber que alma também chora.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Tempos Modernos

o que penso que tu és
na verdade não o és
e o que pensas que sou
na verdade não o sou

e como será que tu és
além destas palavras que não escuto
e desta caracterização
que não sinto?

e como será
que mostro-me a ti
através deste espaço irreal
em que nos afundamos?

e irreais também são
o eu e o tu que criamos
nestes circuitos eletrônicos
de olhos que nunca se olharam.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Sobre a Rotina

com o cansaço que nos move
fatigados caminhamos
por uma estrada sombria
e sem amor
                                   (ou paixão)
olhamo-nos

e junto com o sol que se esvai
a poesia morre
no gélido nada
do eu e você.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Envenenados

quebramos o nosso silêncio
com meias-palavras dispensáveis
na tentativa fálida de sepultar
as brigas quase travadas
na esperança de sentir
de a raiva silenciar.

mas de veneno nos infectamos
solto pelas palavras nunca ditas
enquanto as feridas já cicatrizadas
renascem
exalando o sangue
das dores até então esquecidas.

e soro nenhum temos para nos salvar
pois do amor nos restou o medo
vivo em demasia
alimentado pelas verdades corrompidas.

sábado, 30 de julho de 2011

Chamada Perdida

e com nossas vozes nunca cruzadas
e com nossos suspiros nunca ouvidos
um pelo outro, mas talvez
por estranhos
que nos encerram antes mesmo de nos escutarem
criamos a nossa teia
de sinais que não batem
e de olhos imaginários
que não se olham
porém que choram separados sem nem saberem
que o fazem ao mesmo tempo
com você aí na tristeza
de um grito que ecoa pela solidão
e eu aqui com a dor da impotência
de quem tudo quis fazer
e nada pode.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Adormecendo

Na calada da noite juntamo-nos
Pois o desespero é crescente
Na solidão achamos o imã
Que funde nossa existência.

Tua respiração é branda
E a vela já apagará
Tateio em busca da sua mão na luz que nos resta
Acho-a, mas não a sinto
É fantasma que sólido vive
Ou talvez sólido morra.

A lua está sumindo nas nuvens
E nós estamos sumindo também
Um de cada lado
Adormecendo no passado.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Sobre o Relativo

da rosa que guardas consigo
da rosa que guardo comigo
carregamos o mesmo doce aroma
daqueles que em meia dúzia de pétalas
se sentiram mais
do que aqueles que um jardim inteiro tiveram
e não o fizeram.

Das Escolhas

do futuro carregamos
o doce das esperanças ainda vivas
do presente o deleite
do sabor que ainda se prova
mas do passado
há apenas a crua amargura de saber
todos os pratos que poderíamos ter escolhido
e não escolhemos.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Esfriando

do nosso fruto maduro
o tempo fez amarga podridão
e da nossa água fervente
restou apenas frio vapor
que de tão frio
em gelo se transformará

e agora pergunto-me
quem é esse tal de tempo
que se acha no direito
de fazer o amor silenciar.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Sonhar

as estrelas brilham
sob o nosso leito de rosas despedaçadas
e, de olhos fechados,
não as vemos

e de tristeza queimada
reciclamos a nossa doce felicidade
daqueles que se dão o luxo de sonhar
embaixo de um céu desestrelado.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Ter Demais

em seus olhos há um algo
de amor coagulado
que de tão vazio enche-se
da horrenda indiferença
daqueles que de tanto receberem amor
do mesmo assassinam o valor.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Sobre o Esquecimento

da nossa solidão mutúa que vem
o imã da nossa frágil união
e da desesperança que nos move
surgem as lágrimas
do nosso ímpeto choro

gostaria de saber o que dizer
além dessas palavras de ser derrotado
e gostaria também
de saber o que fazer
além de juntar verbetes que ninguém lerá
ou se lembrará

mas apenas homem sou
e assim permito-me morrer
afogado por um deus
cuja única função
é esquecer.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Sobre a Tristeza

bem sabia que tu virias
como sempre vem
na glória e na derrota

bem pensei em preparar minhas defesas
e engatilhar meu revólver
para pronto te esperar
e quem sabe até expulsar

mas lembro que tudo inútil é
pois quando decides vir
nada te impede
e só o raiar do dia que te expulsa
pois é na noite fria
que o amante chora.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Da Inocência

perseguia-a
por entre árvores de pedra
seu vestido branco a reluzir
na luz negra de uma estrela
tentei abraçá-la
porém ao meu toque se desfez
em água cristalina

despertei num leito só
andei até a janela
e numa poça de vinho vi
a mesma dama de outrora
num vestido negro
em sangue se esvair.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Sobre a Solidão

nos olhares nunca cruzados
nas mãos nunca apertadas
nos lábios nunca encontrados
eu vejo o que chamamos
de solidão

mas é na indiferença
do aconchego dos corpos
sem o abraço das almas
que eu sinto
o que é a tal solidão.

Sobre a Morada

do preto no branco fiz a minha morada
com paredes de sentir
e teto de verdades

agora vejo-a ruir
levada pelos fantasmas
nunca aniquilados

e será que
de mentiras e ilusões
pode se fazer uma casa?

domingo, 3 de julho de 2011

Sobre a Dor

como quem nada quer
vem
chega tímida
então aperta e agarra
incorpora-se a mim e destrói

sei que posso vencê-la
sozinho
mas deixo-a viver
e ela, em troca
me dá razões para escrever.

sábado, 2 de julho de 2011

De cabeça para baixo

da paixão imensurável
faz-se a raiva letal
e do amor
faz-se o ódio
em uma via de única mão

aí está
o desconcerto do mundo.

Irreal

de meus lábios não sai nada de real
só verbetes desconexos
inexistentes por si sós
que no ar planam
e no tempo se consomem.

Sobre a Palavra

queria saber o que dizer
mas apenas homem sou
e como homem
deixo-me a silenciar
enlatado pelas palavras não ditas
e sepultado
nas verdades esquecidas.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Do Inverno ao Verão

olhamo-nos
como quem nada tem a dizer
deixamos os lábios se roçarem
e fizemos das palavras
doce inutilidade
enquanto nadávamos num mar congelado

mas o inverno foi-se
e nas ondas do novo mar que veio
fico a te procurar
você,
que se deixou levar.