domingo, 20 de janeiro de 2013

Despedida

orgulhosos como éramos
optamos por nos trancar no silêncio
soltar o verbo na atmosfera
e refrescar o interno com cornetos

hoje você
continua perdido na escuridão;
dançou nos cacos de vidro
e nos milhares acumulados ao preço
de muitos maços de cigarro
para cair no caixão

enquanto eu sufoco
na fumaça do adeus não dito
faço da sua doença
a minha própria
e das desculpas que guardei
o meu câncer

varando a noite eu me lembro
de como cruzávamos oceanos
nas curvaturas da banheira cheia
transbordante
de água fria
sem nunca naufragarmos

e me lembro de tudo um pouco:
a comida sem sal, as camisas sempre
iguais, o cheiro de casa fechada, o cinza
dos seus olhos, os presentes que eu nunca
entendi, os abraços a distância, a própria
distância eterna entre nós, a última
briga, os sorvetes no fim de tarde,
o quarto sempre trancado
o você que eu nunca conheci,
o seu raro sorriso.

quando me falaram do fato
pelos tubos do telefone picotado
eu não chorei nem na hora e nem
depois
só quando percebi que nenhum dos seus relógios
parara junto contigo
e nem o Tempo parou
que eu me atrevi a desabar
por saber que já era tarde demais

eu devia ter dado mais atenção
aos nossos relógios.