Entro no ônibus e sento-me num banco, na minha frente uma senhora com sacolas de supermercado e aparência carrancuda de mãe cansada e já apedrejada pela vida, ao meu lado um metódico nada, o qual me deu a liberdade de quase deitar. Saco meu livro um tanto sujo por tantas semanas a vagar de um lado ao outro em minha bolsa, sempre a distrair-me nas viagens dentro do transporte público destinado às massas, tão precário de emoção.
Olho para trás, e aí está você.
Sentada há alguns bancos de distância, olhos vidrados em algo que trás no colo. Lábios secos que a língua periodicamente umidifica.
Estanquei.
De repente, ergue os teus olhos e junta-os aos meus. Encaramo-nos no silêncio das almas mudas e no caos do ambiente urbano. A cidade grita, os seres se calam. Nós nos enxergamos.
E nós nos sentimos, apenas como dois desconhecidos são capazes de se sentir. Estávamos livres das dores da decepção mútua.
Mas sentias que algo em ti me clamava, e algo em mim te clamava também. Queríamos provar do conhecer. Queríamos correr o risco de por o nosso sentir a morrer.
Havia um lugar livre a teu lado. Havia um lugar livre a meu lado.
O ônibus para num ponto. E os lugares desaparecem; agora jaz tudo cheio. Porém não conseguia parar de te encarar, pois em teus olhos havia um algo que conheço, e que tinha. Mas que se perdeu.
Sinto que te amo. E sinto que me amas também. O amor singular das almas que se juntam sem se encostarem, e que vivem em co-existência sem se fundir. Ou que se fundem sem se perder.
E com a mesma velocidade que os olhares criaram o amor que nos une, tu se levantas e puxas a corda do ônibus. Está no seu tempo de ir. O amor em teus olhos se mescla com a dor, e o meu peito se contorce no prever da solidão.
Mas não importa o quanto de dor ou solidão nós tenhamos: está na hora de nos separarmos. Eu para os braços de alguém esta noite, mesmo sabendo que eles nunca mais serão o suficiente. E tu? Quem sabe para o mesmo destino.
Porém desejo-te, e sei que me desejas também.
A porta se abre e tu se vai. O elo se rompe.
Corro e peço para que o motorista me deixe descer o mais rápido possível, que me liberte da prisão de impotência das paredes do ônibus, impotência de chegar até ti.
Pulo para a rua e busco o teu corpo, mesmo que não o tenha visto em plenitude. E busco o teu olhar, pois nele carregas um pedaço de mim mesmo, bem como carrego de ti um pedaço seu.
Não te encontro. Não me encontras.
Nunca nos encontramos.
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