quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Sem Envelhecer

o Tempo que tínhamos em comunhão
restou apenas como o eu e o tu
sem verbo para nos conjugar nem posicionar
perdidos na esfera em que não há tempo
e tampouco espaço:
a morte em sua plena essência está na ausência
de tudo e todo e qualquer universo
que se permita existir e movimentar;
apenas o nós congelado se deteriorando
sem envelhecer ou apodrecer
na memória de quem ainda se lembra.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Erro Bíblico

antes que me esqueça do verso não-proclamado
tenho de contrariar a minha relutância
e peço de antemão que não se sintas
desiludida ou tampouco
destituida
mas é necessário dizer a verdade que há
mesmo em um jardim de mentiras:
que não foste tu e teu desabrochar que me furtaram a inocência das palavras
antes ruptura de esperança no céu da noite
agora fenda de loucura no poço do inferno
perdi-a antes de ti, invariavelmente
na primeira vez que um corpo tocou o outro na solidão
e o prazer fincou garras na pele nua, e erra a bíblia ao crer
que primeiro eva se perdeu e assim o fez com adão
pois do outro lado da árvore perdida jazia largado ao chão
um miolo de maçã já comida.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O Gozo dos Anjos

cada instante preciso e perdido dentro do nosso
romance esquecido de amor
apenas palavras ditas e repetidas ao som
da transmutação de irrealidade em verdade
era um punhado de areia arremessado aos sete céus do inferno
lembrar que rolamos loucos de sexo em camas negras
cheirando a carvão queimado
fincando unhas de granito na epiderme
confundindo o fogo com sangue dos nossos corpos
gritando ao diabo que parasse o fluxo e refluxo do desejo divino
de querer roubar de deus e seus doze arcanjos
o gozo dos anjos.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O Vinho e o Ralo

calce a tua bota negra engrachada e polida
agora levante bem a perna e se prepare
pois eu, eu já estou preparado, apesar de não ter
escudo de proteção ou armadura de gladiador
só mãos frágeis que nunca sofreram os cacos de todos os dias
o aço e o ferro do mundo de quem sofre a verdadeira dor
apenas habituadas a buscar as tuas num breu cínico
misto de ilusão com sarcasmo negro
palpitá-las na cegueira do paraíso astral
para seguí-las até o inferno das labaredas
dos teus olhos desvairados
tão inúteis ao trabalho quanto para parar
a tua pisada santa

quebre-as ao meio, baby baby
elas não te servem mais
pois bem sabes que sempre terás outras
e quando precisar destas fracas mãos de poeta
virás cheia de beijos e promessas sem fundo
cheques entupidos de infinitos
e elas te buscarão na total insanidade de quem quer
o santo remédio

(e quanto mais tu pisaras? quanto
mais pisaras? quanto mais
pisaras em mim, você que era
anjo?)

para que a chibata, meu amor?
já tiraste a brancura da minha pele marfim
precisas de sangue para ser feliz, bem o sei
sempre soube, tu que caminhavas pelas ruas
deixando corpos estendidos pelo caminho
e mentindo que o que gotejava da saia azul-anil
era o teu próprio sangue de coração partido
desiludida com as rosas estendidas, as palavras ditas
enquanto os indigentes se desvaindo em vinho maldito
apodrecem na escuridão
das tuas noites bem calculadas

e agora que já tens o sangue e a dor
se fundindo pelo assoalho da cozinha enquanto
o bolo assa no fogão ali ao lado
termine o trabalho
humidifique teus lábios e se prepare
pois eu já estou preparado, embora nada tenha
a me proteger
e cuspa sobre todo o vinho ali derramado
que se esvai para o ralo.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Que Sejas Livre

se escancaro a porta, quebro a maçaneta
para que nunca mais ela se feche
e digo que vá se quiseres
saibas que é apenas charme de mentiroso
bem sei no que vamos pisar
e no breu não se enxerga nem fogo
e nem gelo
mas se abro a porta é apenas por saber
que ela sempre assim esteve
não é desejo de te ver ir
nem vontade minha de ir

estás aberta pois não suportaria te ver
trancafiada no casulo da minha frágil
inexistência
rodopiando junto a meu corpo
nos cacos das garrafas de vinho vazias
com uvas palpitando sangue
amargamente podre
e digo que saia por ela para viver
as danças e os beijos
que não sou apto a te dar
sempre no intuito egoísta de crer que não irás
que eu e tu já somos
imunes aos cacos de vidro
espalhados pelo chão.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Última Música

na explosão do crepúsculo mal dividido
mais noite que dia
dançamos a nossa balada de desconhecidos
giros e piruetas sofridos
as mãos solenes e tristres se apalpando sem nunca
se encontrar
afastadas pelo infinito da proximidade
o eterno abismo da carícia nunca concretizada
nos perdendo no pavio da vela queimando
o tocar nunca concretizado num vinil arranhado
o bailar tão cheio de amor e desejo que jamais pertenceria
a dois amantes da sociedade
mas somente aos indigentes das noites
estranhos iludidos na madrugada
e a música acaba, o som se desfaz
os olhos que jamais se abrem para se olhar e ver
um na íris do outro
as cores do crepúsculo a morrer.

De Fora do Paraíso

desconectas sem desligar o nosso espaço
enquanto falta a eletricidade
da qual dependíamos invariavelmente
o fluxo se rompe
como estranhos trocamos palavras
na semi-escuridão do mundo que abandonamos
regressar ao lar de nossas vidas
calmas e pacatas
você sendo ao fim feliz, perdida
dentro das suas irrefutáveis loucuras de todos os dias
eu a rodar pelas ruas da cidade viva
no teatro de existir sem paixão
a poesia se esvaindo pelos meus olhos de peixe
morto
buscando em outros olhares aquele brilho
significante de sentido e ausente de sentido
salvador e pecaminoso, transbordante
de desejo de palavras e versos, ideias meio acabadas
ideias mal finalizadas
que perfura a casca, recria a infância
puro e pecaminoso, sem ser Eva
pois eu, eu não sou Adão, nem nunca serei
para merecer uma filha do paraíso.