sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Eu, Você e os Outros

grãos de areia
fragmentos de pedra
cacos de vidro
poeira cósmica
coplanares, existentes, reais
materiais, ausentes, complementares
perdidos, desencaminhados, indiferentes
eu, você e os outros.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Sobre a Morte da Flor

desistiu.
que os jornais noticiem, os escritores escrevam
os poetas iludam, os emotivos chorem,
os filósofos pensem, os indiferentes ignorem
mas que se respeite o fato consumado bem como foi
que se respeite a luta acirrada contra o senhor de tudo
que se eternalize nas faculdades memoriais o sofrimento tido
porém não com o demasiado respeito que altera as cores antigas
as substitui do vivo resplandescente para o fosco morto
que na morte já há o cadáver a se enterrar, o odor amargo a exalar.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Roubados

Por que disfaçar, acorbertar, inventar
tantas histórias, tantos algos
se o nosso objetivo é simples, se o nosso fim é premeditato?

Por que nos prender, iludir, acorrentar
a tantas expectativas, a tantas mediocridades
se a nossa liberdade é falsa, e bem o sabemos?

E enfim, por que continuar seguindo em frente
caminhar pensando no futuro, esperar pelo fim certo
se sabemos que o que o Tempo rouba
roubado está?

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Sobre o Veneno da Flor

mesmo que do amor se faça a dor
cultivo a flor dentro de mim
deixo-a florescer, crescer. desaflorar
viver e perfumar
mesmo sabendo que um dia ela há de morrer
e se envenenará
e talvez todo o galho acabe por envenenar
sem critério, sem escolha
não há vontade ou razão: há apenas natureza em seu ciclo
de morte e vida
contudo, ainda deixo-a viver, e ainda a nutro
pois mesmo que tudo seja um ciclo
pois mesmo que a morte seja natureza
os produtos da memória se mantém
sem veneno que os envenenem.

Sobre o Se Matar

descontrole é lei
insanidade é mandamento universal
digo o que penso, não o que sou
são inúmeras as partículas do que tantos conhecem que me movimentam
rumo aos caminhos desconhecidos do meu próprio Eu
e por mais que eu vá mais fundo, afasto-me de mim mesmo
me perco dentro dos meus múltiplos caminhos internos
me deixo levar pelas correntezas de hidrocarbonetos alcóolicos
e me saturo na química primária
na mesma proporção
em que sepulto a melhor parte do meu Eu
dentro da minha pior parte.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Sobre um Coração em Divisão

o seu amor se fragmenta em um
em dez
em cem
em mil
em todo o infinito se possível

e tantas são as parcelas dele
tantas, tantas, tantas,
tantas dadas a um
tantas dadas a outro
enquanto finjo me contentar com o infinito dividido pelo infinito
do que resta do seu amor
e seus inúmeros zeros pós-vírgula.

Sobre o Atual

as lembranças me sufocam como braços divinos
esperneio, grito, choro
imploro para que elas parem, e para que tudo desapareça
como se nunca tivesse existido
como se nunca fosse existir

enquanto isso, me consumo de dentro pra fora
enveneno a alma, corrompo os sentidos, corto a carne
arremesso meu ser no travesseiro e deixo-o afundar nas penas dos anjos
em tentativa ignorante de me anular, de me esquecer
e de esquecer tu também

porém, não consigo, e assim me deixo levar pela correnteza dos dias
deixo-me apagar pelo Tempo, sem faca levantar
e sem luta declarar
virando fantasma, virando semi-ser, virando semi-algo
qualquer coisa que seja translúcida no presente
e morta no passado.