terça-feira, 21 de agosto de 2012

Última Música

na explosão do crepúsculo mal dividido
mais noite que dia
dançamos a nossa balada de desconhecidos
giros e piruetas sofridos
as mãos solenes e tristres se apalpando sem nunca
se encontrar
afastadas pelo infinito da proximidade
o eterno abismo da carícia nunca concretizada
nos perdendo no pavio da vela queimando
o tocar nunca concretizado num vinil arranhado
o bailar tão cheio de amor e desejo que jamais pertenceria
a dois amantes da sociedade
mas somente aos indigentes das noites
estranhos iludidos na madrugada
e a música acaba, o som se desfaz
os olhos que jamais se abrem para se olhar e ver
um na íris do outro
as cores do crepúsculo a morrer.

De Fora do Paraíso

desconectas sem desligar o nosso espaço
enquanto falta a eletricidade
da qual dependíamos invariavelmente
o fluxo se rompe
como estranhos trocamos palavras
na semi-escuridão do mundo que abandonamos
regressar ao lar de nossas vidas
calmas e pacatas
você sendo ao fim feliz, perdida
dentro das suas irrefutáveis loucuras de todos os dias
eu a rodar pelas ruas da cidade viva
no teatro de existir sem paixão
a poesia se esvaindo pelos meus olhos de peixe
morto
buscando em outros olhares aquele brilho
significante de sentido e ausente de sentido
salvador e pecaminoso, transbordante
de desejo de palavras e versos, ideias meio acabadas
ideias mal finalizadas
que perfura a casca, recria a infância
puro e pecaminoso, sem ser Eva
pois eu, eu não sou Adão, nem nunca serei
para merecer uma filha do paraíso.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Para Além do Mundo

sob o luar choramos nossas mágoas
de amantes desiludidos
decapitados pelo tempo que nunca tivemos
nunca teríamos
restrito apenas a noites frias
em leitos solitários
na irreal realidade de vozes eletrônicas
quebrando o espaço
sem nunca desfazer a distância
sonhando acordados enquanto o dia amanhecia
olhando para o relógio sempre a lembrar
de que o Tempo não pára
nem para as almas apaixonadas

e nos vendíamos ilusões todos os dias
de escolhas nunca feitas
promessas de olhares perdidos
na bestialidade do som e fúria do mundo
que criávamos sem poder bancar
rodopiando num universo finito
eu fluindo
você brilhando
mas ambos se esquecendo
de que ninguém voa ao redor do Sol.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Desejos Virtuais

pegamos o melhor que tínhamos
e apostamos em mesas virtuais
ocultamos verdades apenas
para criar realidades
mesmo sabendo que só verdades
criam realidades

um pouco de passado imaginário
presente dramatizado
e futuro idealizado
enquanto dançávamos na infinita inconstância
dos nossos sonhos mal formulados
tocando olhares cheios de medo e receio
brilhando de vontade
e nos entregando um ao outro dentro da noite
que nunca compartilhamos
sendo apenas presentes ausentes
gritando em códigos binários inteligíveis
o quanto queríamos
o quanto eu queria
que você estivesse aqui.

Cacos de Memória

me afundo nas tralhas do dia a dia
tudo jogado e espalhado
um braço direito aqui, o esquerdo
em outro lugar
e a cabeça perigrinando solta
pisando em cacos de histórias quase esquecidas
sangrando
sangrando
e as memórias empilham-se nos cantos
presentes nunca dados
poemas nunca lidos
sonhos nunca vividos
tudo perdido na fluidez de uma mente
que beira o caos
tudo abandonado sem sentido na grandeza
do espaço-tempo.

sábado, 14 de julho de 2012

Olhos Paralelos

como seres humanos teimávamos em crer
que tudo podíamos vencer
que o Tempo não seria senhor
que comandavámos aquilo que tínhamos
ou achávamos ter
parar o Tempo, congelar a areia, quebrar o relógio
tudo ilusão
como se noite e dia fossem linhas paralelas
criávamos vidas paralelas
não percebíamos que as linhas paralelas
não existem para olhos humanos
que por mais paralelos que estejam
cruzam a tudo e todos
e se deixam cruzar.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Túnel

me deixo perder nos seus olhos
abocanhado pela caverna das suas íris
levado através do tempo-espaço
até os tempos remotos do nada de ser
as lembranças perdidas no seio de chronos
as límpidas eras que não lembrava
a criança, o garoto, o quase-homem
com suas ideias abandonadas
seus sonhos pisoteados
seus corações partidos
suas almas corrompidas
suas essências envenenadas
e na luz que habita o seu eu
é o túnel que vence a Morte
estagnada sem rir
perdida em absorto
por ter que perceber
ter que aceitar
que nem tudo ela pode vencer.