quarta-feira, 6 de junho de 2012

Só a Morte Goza

somos as crias de uma geração fracassada
os frutos mesquinhos de algo que se foi
ideologia não temos
sangue não queremos
nem cabeças rolando, nem asas voando
queremos tanto o carro quanto a paz
a harmonia de se viver drogado de indiferença
a arte de nunca sentir o mundo
levados pela maré de neón mc donaldiana
carnes super produzidas, cebolas quânticas
água cocalonesca, frangos perdiganos
afogados até o talo de nossos rabos em logotipos
sem sentirmos dor
anestesiados de vaselina virtual
acreditando em deuses mortais da tv fama
xingando demônios do jornal nacional
e esquecendo da mão suprema do Tempo
estilhaçando nossos pulmões enquanto gememos e rimos
com as mulheres da indústria pornô no teatro de gozar
sem jamais perceber que só a Morte que goza no final.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A Luta

dentro de cada suspiro caloroso há
um sopro que seja, uma fagulha que fosse
de energia vibrante, de pulso de vida
mesmo enquanto os batimentos decrescem
e a mente se fecha na escuridão
dentro de cada suspiro ainda há
um flash de esperança
talvez tão curto e definitivo quanto o calor
dentro de cada suspiro.

e cada suspiro carrega em si a força auto-destrutiva
a cegueira que nos impede de ver
de aceitar que a morte é realidade, é constância
que quem vive sempre vive
o risco de morrer
se não hoje, amanhã talvez, ou ontem que tenha sido.

mas é também em cada suspiro
que garantimos o que temos
asseguramos que tentamos, que lutamos
e mesmo que se apague, e mesmo que um suspiro
seja o último
pouca importa o suspiro que foi ou o que será
pois o mais importante você já fez:
encarou os olhos da Morte
cuspiu em teu manto negro
e lutou com uma das certezas que dignifica a vida
que alguém te amava com mais força
do que a Morte te queria.





                                     Uma homenagem a um ser que nunca conheci.
                                     Pois só vivem de verdade aqueles que bombeiam sangue
                                     por mais de um coração. E ele viveu. Adeus.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Presente aos Mortos

os vivos só lembram de seus mortos,
como se fosse um favor, um anestésico da dor
pobres são eles, ali dentro de seus caixões
imprensados por terra e estrume,
folhas secas e rosas desidratadas
e assim choram suas lágrimas em sinal de honra
penduram fotos nas paredes da sala
andam com as jóias dos defuntos
se pudessem vestiriam seus paletós enjaulados
enquanto os mortos riem e brincam entre si
seja debaixo da terra ou no ar
ou seja no infinito da inexistência
pois só aos mortos que cabe a liberdade do abandono ao Tempo.

domingo, 13 de maio de 2012

Progresso

os apartamentos encolhem
nos enterramos em cubículos
não há espaço para vivos ou mortos
enquanto a cidade se alimenta de si mesma
casas viram prédios, prédios viram prédios maiores
é o progresso, todos dizem
pois o lugar do velho é dentro das memórias
mas só até que o Tempo venha
seja disfarçado de morte
seja de alzheimer, tanto faz
é tudo esquecimento, vira tudo ilusão.

irônico pensar que os muros guardam mais de suas pixações
do que nós das pessoas que amamos.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

A Elegância da Morte

vamos, diga sim
aceite, uma palavra, não é grande coisa
talvez seja, mas vamos fingir que não é
dizem que estresse dá câncer
assim como peixes contaminados no Japão
banha de porco norte-americana e o ar de São Paulo
mas venha, diga sim
não tem problema ser mulher com mulher
esse padre não liga para os pequenos detalhes do contrato
você não percebe? ele só não quer ser jogado no mar de cadáveres
além do mais, quem quer?
um bote, mesmo que gélido, ainda é melhor que o mar
agora esqueça também os detalhes e aceite
não se esqueça: nem todo cadáver ali está morto
é muita pressão? é estressante demais? te dará câncer?
ah, fique tranquila, até o câncer tem as suas restrições de existir
como você pode esquecer
que células mortas não se multiplicam?
sim! dê-me sua mão, o anel foi feito para os seus dedos
um par de alianças, um padre num bote a navegar
temos de admitir: eu sei ser elegante.

domingo, 15 de abril de 2012

Cosmos e Cacos

a noite vai lenta dentro de si
fechada como um túmulo de padre
esquecida como uma cova de suicida
venha, toque-me!
é preciso humanidade para isso
eu e você somos apenas indigentes dentro da noite
toque-me e vamos para o suicídio!
você sabe que morrer nem sempre é ruim
às vezes morrer nem é definitivo
la petite mort, la petite mort, é o que queremos
la petite mort et une cigarette, é o que todos querem
um toque, apenas um toque, dê-me a mão e já estarei feliz
humanidade, humanidade vale mais que qualquer gozo de amor
gozo é só som e fúria, mesmo que seja sob a lua
só a mão, juro que será só a mão
pois nem sempre precisamos rolar sobre os cacos
nem sempre precisamos nos estatelar nos cosmos

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Só Uma Migalha de Esperança

através de todos os dias
vagando por corredores infinitos cheios de portas
trancadas
vazios cheios de almas perdidas
que olham umas às outras reconhecendo no negro dos olhos
a mesma ausência da razão, a mesma falta do sentido
os mesmos buracos infinitos rumo ao nada que o Tempo devora
com boca de baleia, caninos de leão,
espírito de burguês diante do ouro
veracidade de humano frente ao poder de mandar
desmandar, humilhar, possuir
consumir, estuprar, os sonhos alheios
até que reste uma migalha de esperança, só uma apenas
para dignificar a vida que ainda resta
pois a morte não dá poder a quem manda
e muito menos o ouro a quem o cobiça

a morte apenas alivia a dor daquele que sofre
liberta aqueles que da liberdade foram privados
por terem os sonhos estraçalhados.