domingo, 27 de novembro de 2011

Sobre a Vontade

Desejo-te a cada poro do meu corpo
Tomas o espírito e queres coordenar minhas ações
E se achas que te impeço por querer próprio, tu se enganas,
Tua essência é liberdade
E liberdade é tudo que posso desejar.

Porém, bem sabes que desejos são proibidos;
Está na hora de ires
Retornar às memórias ainda não tomadas por aquele que o presente governa
E se der, espero que lá tenhas o espaço desejado por ti
Para que possas me abrir, explorar, amar, libertar
E se não tiveres, vá sempre o mais fundo
Não desistas
Que há de haver um lugar que seja, um canto qualquer
Um escanteio de recordação ainda vazio
Uma encruzilhada ensangüentada de pecado.

E saibas que te quero a mim, assim como tinha antes
Mas tudo está ditado, tudo está prescrito
As leis foram subjugadas, o clamor do eu jaz vencido
E agora, vá, Vontade, pois não és tu que mantém a estabilidade
É dito que a tua alma é desgraça
E apenas a ditadura da razão que conserva a moral imaculada.

sábado, 19 de novembro de 2011

Sobre as Palavras Mudas


Não durmo
Não pisco
Não fecho os olhos
Na esperança cega e um tanto inútil de que tal negação me iluda da realidade das visões dos seus lábios beijando outros lábios
Das suas mãos tomando outras mãos
Do teu corpo em profusão a outro corpo
Da sua alma em amor a outra alma.

E desconfio interminavelmente dos seus dizeres de amor
Tão puros e sinceros quanto a sua natureza fugaz e indiferente
Que esquece sem perceber a lástima das memórias
E apaga a paixão sufocando-a com braços de amor com dignidade de ódio malévolo
Enquanto ponho-me a afundar em sangue de meu coração despedaçado por palpitantes apelos mudos
Com suspiros nunca concretizados pelos pulmões cravejados de dúvidas
Com lágrimas nunca choradas por olhos tonteados de incertezas
E com palavras nunca ditas por uma alma frágil
E enxuta de emoções covardes de um ser triste e corrompido
Pelas recordações das felicidades (in)existentes.

domingo, 18 de setembro de 2011

Sobre a Verdade

no meu mudo choro
das lágrimas que jorram por dentro
e dos suspiros que a alma solta sem soltar
é que começo a entender
que nos perder
nunca nos perdemos

e estar juntos
nunca estivemos.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A Dor das Almas Gêmeas

Entro no ônibus e sento-me num banco, na minha frente uma senhora com sacolas de supermercado e aparência carrancuda de mãe cansada e já apedrejada pela vida, ao meu lado um metódico nada, o qual me deu a liberdade de quase deitar. Saco meu livro um tanto sujo por tantas semanas a vagar de um lado ao outro em minha bolsa, sempre a distrair-me nas viagens dentro do transporte público destinado às massas, tão precário de emoção. 

Olho para trás, e aí está você.

Sentada há alguns bancos de distância, olhos vidrados em algo que trás no colo. Lábios secos que a língua periodicamente umidifica. 

Estanquei.

 
De repente, ergue os teus olhos e junta-os aos meus. Encaramo-nos no silêncio das almas mudas e no caos do ambiente urbano. A cidade grita, os seres se calam. Nós nos enxergamos.
E nós nos sentimos, apenas como dois desconhecidos são capazes de se sentir. Estávamos livres das dores da decepção mútua.
Mas sentias que algo em ti me clamava, e algo em mim te clamava também. Queríamos provar do conhecer. Queríamos correr o risco de por o nosso sentir a morrer.

Havia um lugar livre a teu lado. Havia um lugar livre a meu lado.

O ônibus para num ponto. E os lugares desaparecem; agora jaz tudo cheio. Porém não conseguia parar de te encarar, pois em teus olhos havia um algo que conheço, e que tinha. Mas que se perdeu.
Sinto que te amo. E sinto que me amas também. O amor singular das almas que se juntam sem se encostarem, e que vivem em co-existência sem se fundir. Ou que se fundem sem se perder.
E com a mesma velocidade que os olhares criaram o amor que nos une, tu se levantas e puxas a corda do ônibus. Está no seu tempo de ir. O amor em teus olhos se mescla com a dor, e o meu peito se contorce no prever da solidão.
Mas não importa o quanto de dor ou solidão nós tenhamos: está na hora de nos separarmos. Eu para os braços de alguém esta noite, mesmo sabendo que eles nunca mais serão o suficiente. E tu? Quem sabe para o mesmo destino.
Porém desejo-te, e sei que me desejas também.

A porta se abre e tu se vai. O elo se rompe.

Corro e peço para que o motorista me deixe descer o mais rápido possível, que me liberte da prisão de impotência das paredes do ônibus, impotência de chegar até ti.
Pulo para a rua e busco o teu corpo, mesmo que não o tenha visto em plenitude. E busco o teu olhar, pois nele carregas um pedaço de mim mesmo, bem como carrego de ti um pedaço seu.
Não te encontro. Não me encontras.

Nunca nos encontramos.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Sobre a Dor Mútua

olha-me com olhos vermelhos
de lágrimas ressecadas
olho-te com olhos negros
de lágrimas nunca choradas

e sinto-te
a alma despedaçada
e sinta-me
a alma envenenada

e se na dor e na tisteza
não somos capazes de nos consolar
por que na felicidade
devemos nos juntar?

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Sobre o Eu

sou um poeta com tudo,
menos comigo mesmo.

indiferente na aparência,
e insatisfeito na essência.

que de palavras se nutre,
e em amor se sufoca.

e que vive e morre,
sem perceber que alma também chora.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Tempos Modernos

o que penso que tu és
na verdade não o és
e o que pensas que sou
na verdade não o sou

e como será que tu és
além destas palavras que não escuto
e desta caracterização
que não sinto?

e como será
que mostro-me a ti
através deste espaço irreal
em que nos afundamos?

e irreais também são
o eu e o tu que criamos
nestes circuitos eletrônicos
de olhos que nunca se olharam.