domingo, 20 de janeiro de 2013

Despedida

orgulhosos como éramos
optamos por nos trancar no silêncio
soltar o verbo na atmosfera
e refrescar o interno com cornetos

hoje você
continua perdido na escuridão;
dançou nos cacos de vidro
e nos milhares acumulados ao preço
de muitos maços de cigarro
para cair no caixão

enquanto eu sufoco
na fumaça do adeus não dito
faço da sua doença
a minha própria
e das desculpas que guardei
o meu câncer

varando a noite eu me lembro
de como cruzávamos oceanos
nas curvaturas da banheira cheia
transbordante
de água fria
sem nunca naufragarmos

e me lembro de tudo um pouco:
a comida sem sal, as camisas sempre
iguais, o cheiro de casa fechada, o cinza
dos seus olhos, os presentes que eu nunca
entendi, os abraços a distância, a própria
distância eterna entre nós, a última
briga, os sorvetes no fim de tarde,
o quarto sempre trancado
o você que eu nunca conheci,
o seu raro sorriso.

quando me falaram do fato
pelos tubos do telefone picotado
eu não chorei nem na hora e nem
depois
só quando percebi que nenhum dos seus relógios
parara junto contigo
e nem o Tempo parou
que eu me atrevi a desabar
por saber que já era tarde demais

eu devia ter dado mais atenção
aos nossos relógios.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Suicídio

caminhar e se jo-
gar na lambareda
da noite adentro

ela se foi sem se
despedir ou sem um último
sorriso

dançou na
lua poente para cair
junto às trevas

queria ter lhe dito
um adeus
ou tocado seus olhos
com meus lábios
uma única e última
vez

mas nem na morte e nem
na vida há
tempo para despedidas

o tempo esconde coisas.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Indivisível

num dos devarios que me rompem as noites
conto as minhas quase incalculáveis paixões
ignoro aquelas feitas nos ônibus ao retornar dos encontros
malfeitos e inacabados com as outras
senão as horas da noite seriam insuficientes
e eu romperia a fronteira dos dias juntando-as
para ao fim esquecê-las

e um a um os rostos se somam nas horas do relógio

cada um deles no momento em que se foram
caíram em mim para quebrar ao fundo
um, dois, três, quatro,
agora já frações de minutos para que encaixem todas
e se atribuo um número a cada, submeto-as a matemática
e a racionalidade numeral
perceber que o um transforma-se em meio
divido as horas de cada uma de vocês friamente
como manda o mundo de quem abandona o passado

mas o zero permanece intocado
converso com livros de álgebra e procuro na razão
um método de te fragmentar e despedaçar
como todas as outras já foram
porém tu, tu és o maldito número vazio
que a tudo sobrevive
que em tudo habita
na inexistência da forma material
tanto indivisível pelos outros
tanto indivisível pelo meu tempo-espaço

o primeiro dos números inteiros
e talvez o único dos reais.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Sem Envelhecer

o Tempo que tínhamos em comunhão
restou apenas como o eu e o tu
sem verbo para nos conjugar nem posicionar
perdidos na esfera em que não há tempo
e tampouco espaço:
a morte em sua plena essência está na ausência
de tudo e todo e qualquer universo
que se permita existir e movimentar;
apenas o nós congelado se deteriorando
sem envelhecer ou apodrecer
na memória de quem ainda se lembra.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Erro Bíblico

antes que me esqueça do verso não-proclamado
tenho de contrariar a minha relutância
e peço de antemão que não se sintas
desiludida ou tampouco
destituida
mas é necessário dizer a verdade que há
mesmo em um jardim de mentiras:
que não foste tu e teu desabrochar que me furtaram a inocência das palavras
antes ruptura de esperança no céu da noite
agora fenda de loucura no poço do inferno
perdi-a antes de ti, invariavelmente
na primeira vez que um corpo tocou o outro na solidão
e o prazer fincou garras na pele nua, e erra a bíblia ao crer
que primeiro eva se perdeu e assim o fez com adão
pois do outro lado da árvore perdida jazia largado ao chão
um miolo de maçã já comida.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O Gozo dos Anjos

cada instante preciso e perdido dentro do nosso
romance esquecido de amor
apenas palavras ditas e repetidas ao som
da transmutação de irrealidade em verdade
era um punhado de areia arremessado aos sete céus do inferno
lembrar que rolamos loucos de sexo em camas negras
cheirando a carvão queimado
fincando unhas de granito na epiderme
confundindo o fogo com sangue dos nossos corpos
gritando ao diabo que parasse o fluxo e refluxo do desejo divino
de querer roubar de deus e seus doze arcanjos
o gozo dos anjos.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O Vinho e o Ralo

calce a tua bota negra engrachada e polida
agora levante bem a perna e se prepare
pois eu, eu já estou preparado, apesar de não ter
escudo de proteção ou armadura de gladiador
só mãos frágeis que nunca sofreram os cacos de todos os dias
o aço e o ferro do mundo de quem sofre a verdadeira dor
apenas habituadas a buscar as tuas num breu cínico
misto de ilusão com sarcasmo negro
palpitá-las na cegueira do paraíso astral
para seguí-las até o inferno das labaredas
dos teus olhos desvairados
tão inúteis ao trabalho quanto para parar
a tua pisada santa

quebre-as ao meio, baby baby
elas não te servem mais
pois bem sabes que sempre terás outras
e quando precisar destas fracas mãos de poeta
virás cheia de beijos e promessas sem fundo
cheques entupidos de infinitos
e elas te buscarão na total insanidade de quem quer
o santo remédio

(e quanto mais tu pisaras? quanto
mais pisaras? quanto mais
pisaras em mim, você que era
anjo?)

para que a chibata, meu amor?
já tiraste a brancura da minha pele marfim
precisas de sangue para ser feliz, bem o sei
sempre soube, tu que caminhavas pelas ruas
deixando corpos estendidos pelo caminho
e mentindo que o que gotejava da saia azul-anil
era o teu próprio sangue de coração partido
desiludida com as rosas estendidas, as palavras ditas
enquanto os indigentes se desvaindo em vinho maldito
apodrecem na escuridão
das tuas noites bem calculadas

e agora que já tens o sangue e a dor
se fundindo pelo assoalho da cozinha enquanto
o bolo assa no fogão ali ao lado
termine o trabalho
humidifique teus lábios e se prepare
pois eu já estou preparado, embora nada tenha
a me proteger
e cuspa sobre todo o vinho ali derramado
que se esvai para o ralo.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Que Sejas Livre

se escancaro a porta, quebro a maçaneta
para que nunca mais ela se feche
e digo que vá se quiseres
saibas que é apenas charme de mentiroso
bem sei no que vamos pisar
e no breu não se enxerga nem fogo
e nem gelo
mas se abro a porta é apenas por saber
que ela sempre assim esteve
não é desejo de te ver ir
nem vontade minha de ir

estás aberta pois não suportaria te ver
trancafiada no casulo da minha frágil
inexistência
rodopiando junto a meu corpo
nos cacos das garrafas de vinho vazias
com uvas palpitando sangue
amargamente podre
e digo que saia por ela para viver
as danças e os beijos
que não sou apto a te dar
sempre no intuito egoísta de crer que não irás
que eu e tu já somos
imunes aos cacos de vidro
espalhados pelo chão.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Última Música

na explosão do crepúsculo mal dividido
mais noite que dia
dançamos a nossa balada de desconhecidos
giros e piruetas sofridos
as mãos solenes e tristres se apalpando sem nunca
se encontrar
afastadas pelo infinito da proximidade
o eterno abismo da carícia nunca concretizada
nos perdendo no pavio da vela queimando
o tocar nunca concretizado num vinil arranhado
o bailar tão cheio de amor e desejo que jamais pertenceria
a dois amantes da sociedade
mas somente aos indigentes das noites
estranhos iludidos na madrugada
e a música acaba, o som se desfaz
os olhos que jamais se abrem para se olhar e ver
um na íris do outro
as cores do crepúsculo a morrer.

De Fora do Paraíso

desconectas sem desligar o nosso espaço
enquanto falta a eletricidade
da qual dependíamos invariavelmente
o fluxo se rompe
como estranhos trocamos palavras
na semi-escuridão do mundo que abandonamos
regressar ao lar de nossas vidas
calmas e pacatas
você sendo ao fim feliz, perdida
dentro das suas irrefutáveis loucuras de todos os dias
eu a rodar pelas ruas da cidade viva
no teatro de existir sem paixão
a poesia se esvaindo pelos meus olhos de peixe
morto
buscando em outros olhares aquele brilho
significante de sentido e ausente de sentido
salvador e pecaminoso, transbordante
de desejo de palavras e versos, ideias meio acabadas
ideias mal finalizadas
que perfura a casca, recria a infância
puro e pecaminoso, sem ser Eva
pois eu, eu não sou Adão, nem nunca serei
para merecer uma filha do paraíso.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Para Além do Mundo

sob o luar choramos nossas mágoas
de amantes desiludidos
decapitados pelo tempo que nunca tivemos
nunca teríamos
restrito apenas a noites frias
em leitos solitários
na irreal realidade de vozes eletrônicas
quebrando o espaço
sem nunca desfazer a distância
sonhando acordados enquanto o dia amanhecia
olhando para o relógio sempre a lembrar
de que o Tempo não pára
nem para as almas apaixonadas

e nos vendíamos ilusões todos os dias
de escolhas nunca feitas
promessas de olhares perdidos
na bestialidade do som e fúria do mundo
que criávamos sem poder bancar
rodopiando num universo finito
eu fluindo
você brilhando
mas ambos se esquecendo
de que ninguém voa ao redor do Sol.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Desejos Virtuais

pegamos o melhor que tínhamos
e apostamos em mesas virtuais
ocultamos verdades apenas
para criar realidades
mesmo sabendo que só verdades
criam realidades

um pouco de passado imaginário
presente dramatizado
e futuro idealizado
enquanto dançávamos na infinita inconstância
dos nossos sonhos mal formulados
tocando olhares cheios de medo e receio
brilhando de vontade
e nos entregando um ao outro dentro da noite
que nunca compartilhamos
sendo apenas presentes ausentes
gritando em códigos binários inteligíveis
o quanto queríamos
o quanto eu queria
que você estivesse aqui.

Cacos de Memória

me afundo nas tralhas do dia a dia
tudo jogado e espalhado
um braço direito aqui, o esquerdo
em outro lugar
e a cabeça perigrinando solta
pisando em cacos de histórias quase esquecidas
sangrando
sangrando
e as memórias empilham-se nos cantos
presentes nunca dados
poemas nunca lidos
sonhos nunca vividos
tudo perdido na fluidez de uma mente
que beira o caos
tudo abandonado sem sentido na grandeza
do espaço-tempo.

sábado, 14 de julho de 2012

Olhos Paralelos

como seres humanos teimávamos em crer
que tudo podíamos vencer
que o Tempo não seria senhor
que comandavámos aquilo que tínhamos
ou achávamos ter
parar o Tempo, congelar a areia, quebrar o relógio
tudo ilusão
como se noite e dia fossem linhas paralelas
criávamos vidas paralelas
não percebíamos que as linhas paralelas
não existem para olhos humanos
que por mais paralelos que estejam
cruzam a tudo e todos
e se deixam cruzar.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Túnel

me deixo perder nos seus olhos
abocanhado pela caverna das suas íris
levado através do tempo-espaço
até os tempos remotos do nada de ser
as lembranças perdidas no seio de chronos
as límpidas eras que não lembrava
a criança, o garoto, o quase-homem
com suas ideias abandonadas
seus sonhos pisoteados
seus corações partidos
suas almas corrompidas
suas essências envenenadas
e na luz que habita o seu eu
é o túnel que vence a Morte
estagnada sem rir
perdida em absorto
por ter que perceber
ter que aceitar
que nem tudo ela pode vencer.

domingo, 8 de julho de 2012

Infinito dos Olhos

me afundo em olhares alheios em ruas desconhecidas
me deixo conduzir, levar, fluir
acreditar em deuses inexistentes
macacos tocando tambores dentro de almas corruptíveis
castanhos profundos e azuis melancólicos
torcendo para que alguém
um ser, macaco, vida, cachorro
consiga ir além do azul e do verde da íris entopercida
controlada de sanidade humana
feita de cidade trafegada de automóveis sem combustível
inútil aos olhos dos loucos, sem graça aos olhos dos sãos
o misto entre vazio total e inexistência absoluta
cuja única beleza é modificar a luz do mundo
iludir pela força das cores
ludibriar pela força do infinito de tons que existe
entre o tudo e o infinito do mundo que só eu habito.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Nós e Fluxos

o Tempo nos amordaça e doma
e sacaneia a todo instante
os fluxos certos
os nós errados
rindo de nossa desgraça ele fica
parado o sorriso cínico
os olhos que de tão insanos de maldade
tornam-se bons ao fim
mas no âmago da língua de serpente
ele prende a gargalhada
saber que deus escreve torto
por linhas certas
o garrancho divino da vida
que escapa a todo tempo
tudo o que podia ter sido
tudo o que não foi
preso nos olhos do relógio
tic-tac, senhor
os fluxos certos
os nós errados
e a areia escapando
para longe de nós.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Sonhos Enlatados

eu preciso de uma
viagem
mas aliás, quem não precisa
de algo para tirar da doce rotina
(doce? doce uma ova!
amarga, gosto de tempo escorrendo pela garganta
ácida pelas entranhas)
quem não precisa de um algo qualquer
que gere o caos, quebre a inércia do lago calmo
desalinhe o cosmo de todos os dias

dia? quem precisa de dia, afinal?
ontem, hoje, amanhã, tudo projétil
da mesma pistola universal
projetada para seis bilhões de cabeças de gado
com cheiro de pólvora para as que se foram hoje
você bem sabe, baby, que todos se vão
em algum momento
e com você, ou comigo, não será nada
diferente
quem vive sempre pode morrer
fétido clichê que nos rouba a noite

vamos fugir para nosso sonhos, então!
vamos sim
vamos para lá, onde o Tempo não
existe
o Tempo lá é nosso serviçal
(ha-ha-ha-ha, ilusão!)
onde se pode misturar os três tempos
e mais o de tudo que existe
sem álcool, sem drogas, sem alucinação
apenas um pouco de desprendimento com a vida
apenas um pouco de loucura genuína
para tornar tudo ao menos um pouco mais
divertido

e vamos viver nos nossos sonhos
a ilusão de termos o comando do que há
lembra-se de quando querias
ser astronauta? de quando querias
mudar o mundo? de quando querias
morrer pela causa?
o que houve com tudo o que sonhavas, amigo
tudo morreu?
ou será que os dias vieram e a utopia se trocou
por realidade
e indigestão virou
indiferença?

e agora seu sonho é o que? a vida calma do campo
vaquinhas, uma fazendo bonita
família linda, esposa feliz, cachorro babão
um porco, quem sabe, um porco bem rosado e sem lama
um lugar para fugir do Tempo
ontem, hoje e amanhã sejam nada mais
que a mesma coisa, o mesmo ar, a mesma grama
nada mais que umas estações mudando hora sim, hora não
vamos ali no supermercado comprar
mais uma lata de sonho feliz
nada de revolução, utopia, loucura
liberdade
apenas mais um sonho feliz enlatado
com data de validade para deixarmos apodrecer
dentro de nós.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Só a Morte Goza

somos as crias de uma geração fracassada
os frutos mesquinhos de algo que se foi
ideologia não temos
sangue não queremos
nem cabeças rolando, nem asas voando
queremos tanto o carro quanto a paz
a harmonia de se viver drogado de indiferença
a arte de nunca sentir o mundo
levados pela maré de neón mc donaldiana
carnes super produzidas, cebolas quânticas
água cocalonesca, frangos perdiganos
afogados até o talo de nossos rabos em logotipos
sem sentirmos dor
anestesiados de vaselina virtual
acreditando em deuses mortais da tv fama
xingando demônios do jornal nacional
e esquecendo da mão suprema do Tempo
estilhaçando nossos pulmões enquanto gememos e rimos
com as mulheres da indústria pornô no teatro de gozar
sem jamais perceber que só a Morte que goza no final.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A Luta

dentro de cada suspiro caloroso há
um sopro que seja, uma fagulha que fosse
de energia vibrante, de pulso de vida
mesmo enquanto os batimentos decrescem
e a mente se fecha na escuridão
dentro de cada suspiro ainda há
um flash de esperança
talvez tão curto e definitivo quanto o calor
dentro de cada suspiro.

e cada suspiro carrega em si a força auto-destrutiva
a cegueira que nos impede de ver
de aceitar que a morte é realidade, é constância
que quem vive sempre vive
o risco de morrer
se não hoje, amanhã talvez, ou ontem que tenha sido.

mas é também em cada suspiro
que garantimos o que temos
asseguramos que tentamos, que lutamos
e mesmo que se apague, e mesmo que um suspiro
seja o último
pouca importa o suspiro que foi ou o que será
pois o mais importante você já fez:
encarou os olhos da Morte
cuspiu em teu manto negro
e lutou com uma das certezas que dignifica a vida
que alguém te amava com mais força
do que a Morte te queria.





                                     Uma homenagem a um ser que nunca conheci.
                                     Pois só vivem de verdade aqueles que bombeiam sangue
                                     por mais de um coração. E ele viveu. Adeus.